A artista nipo-brasileira Akimi Watanabe, que vive em Brasília e é filha de imigrantes japoneses, utiliza a prática histórica dos “Pés de Lótus” – uma antiga tradição chinesa que causava mutilações em mulheres por um ideal estético – para provocar uma reflexão sobre os limites da conformidade às normas sociais atuais: *até que ponto aceitamos ser moldados?*
Na sua mais recente mostra, Watanabe destaca como, durante a China imperial, um conjunto de valores culturais e econômicos, disfarçados de status e sofisticação, impunha dores intensas às meninas. O intuito era transformá-las em meros objetos decorativos, limitando suas interações sociais. Este exemplo histórico, tanto duradouro quanto assustador, serve como um espelho para nossa própria realidade.
Durante quatro anos, a artista se comprometeu com uma pesquisa aprofundada sobre o tema, resultando em uma produção artística significativa. Composta por 100 desenhos em nanquim sobre algodão, 5 colagens digitais, 3 instalações e 60 desenhos em papel nanquim, além de objetos e esculturas, ela constrói uma narrativa sensível e provocadora que leva o público a questionar: “até quando a busca pela aprovação social ainda irá influenciar as transformações do corpo? Em que medida continuamos a nos adaptar para sermos aceitos e reconhecidos?”
Ainda assim, talvez exista uma crença profunda de que é necessário romper para ser aceito. Quebrar barreiras para pertencer e moldar-se para ser visto. No entanto, a pergunta crucial persiste: até onde somos nós mesmos – e não apenas o reflexo da forma que o mundo decidiu nos impor?
O trabalho de Watanabe transcende a simples crítica ao passado. Ela nos provoca a desvendar os mecanismos semelhantes que operam na contemporaneidade. *Quais seriam os “pés de lótus” da modernidade?* Essa questão ressoa ao considerarmos o poder normatizador das redes sociais, imposições criadas por influencers, filosofias distorcidas, religiões manipuladas e padrões estéticos inatingíveis que moldam nossos corpos, pensamentos e estilos de vida.
A artista sugere que a verdadeira distopia reside na crença de que estamos livres dentro de um sistema discreto que aprisiona e cega. A declaração da Ministra Carmen Lúcia do STF – *“não fomos silenciadas, fomos silenciadas”* – ecoa na exposição, lembrando que o corpo feminino continua sendo um campo ideológico de batalha há milênios. Portanto, a obra de Akimi Watanabe convida os espectadores a adotar uma visão crítica sobre as forças que nos definem tanto no passado quanto no presente.
Evento de abertura da exposição no dia 9 de abril, às 19h
SERVIÇO
Exposição: Verdade Moldada
Artista: Akimi Watanabe
Local: Espaço Oscar Niemeyer
Data: De 9 de abril a 12 de maio
Horário: De terça a sexta — das 9h às 18h / Sábado e domingo — das 9h às 17h
