Irã desmente declarações de Trump sobre suposta solicitação de cessar-fogo em Teerã

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou nesta quarta-feira, 1º, que Teerã não apresentou qualquer proposta de cessar-fogo, contrariando declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

À agência de notícias iraniana IRIB, Araghchi descreveu um suposto plano proposto pelo Irã como “especulações”. Ele também afirmou que a guerra, desencadeada por ataques dos EUA e Israel contra território iraniano, continuará até que “o agressor seja punido e a indenização integral seja paga ao Irã”.

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Mais cedo, Trump disse que Teerã quer um cessar-fogo entre as partes do conflito, citando o “presidente do novo regime do Irã”, embora Masoud Pezeshkian seja o presidente do país desde julho de 2024, após a morte de Ebrahim Raisi.

Um dia antes, Araghchi já havia sinalizado a disposição de Teerã em continuar lutando. Ele reforçou que os países não estão em negociações e que o Irã não respondeu a uma suposta proposta de 15 pontos apresentada por Washington para encerrar o conflito.

“Não se pode falar com o povo do Irã na linguagem das ameaças e dos prazos”, disse ele. “Não estabelecemos nenhum prazo para nos defendermos”.

Também na terça, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, disse que a República Islâmica tem a “vontade necessária” para acabar com a guerra, desde que seus inimigos apresentem “as garantias necessárias” de que o conflito não será retomado.

Trump, cujas declarações sobre a guerra oscilam entre um tom combativo e conciliador, surpreendeu na terça-feira com uma nova guinada ao afirmar que a guerra poderia, desencadeada por ataques americanos e israelenses contra território iraniano, poderia terminar em “duas, talvez três semanas”. “Mas vamos terminar o trabalho”, insistiu.

Um dia antes ele havia prometido “aniquilar” a estratégica ilha iraniana de Kharg e poços de petróleo se um acordo sobre a reabertura do estratégico Estreito de Ormuz não fosse alcançado rapidamente.

Nos bastidores, segundo uma reportagem do jornal americano The Wall Street Journal, citando autoridades do governo, Trump teria dito que estaria disposto a encerrar a guerra mesmo que o Estreito de Ormuz permaneça fechado. O presidente e sua equipe avaliaram nos últimos dias que uma operação para reabrir a rota marítima prolongaria a guerra para além do prazo de seis semanas estabelecido anteriormente por ele.

Diante disso, o presidente americano teria decidido focar em alcançar seus objetivos principais: o enfraquecimento da Marinha do Irã, a destruição de seu arsenal de mísseis e a redução das hostilidades. Em paralelo, exerceria pressão diplomática sobre Teerã para reativar a navegação no Estreito de Ormuz.

Caso o fluxo de navios na região continue interrompido, o republicano considera transmitir a responsabilidade pela reabertura do estreito aos aliados na Europa e no Golfo, disseram as autoridades americanas ao WSJ.

“Garantias necessárias”

O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, disse na terça-feira que a República Islâmica tem a “vontade necessária” para acabar com a guerra, desde que seus inimigos apresentem “as garantias necessárias” de que o conflito não será retomado.

Contudo, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, reiterou, em uma entrevista exibida nesta quarta-feira, que o país não está em negociações com os Estados Unidos e que Teerã não respondeu a uma suposta proposta de 15 pontos apresentada por Washington para encerrar o conflito.

“Recebemos mensagens da parte americana, algumas diretas e outras por meio de nossos amigos na região, e sempre que é necessário respondemos às mensagens”, declarou ao canal Al Jazeera.

A Guarda Revolucionária ameaçou atacar empresas americanas de alta tecnologia, como Google, Intel, Meta e Apple, em caso de mais “assassinatos” de dirigentes iranianos.

Crise do petróleo

O Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo e gás consumidos pelo planeta, está fechado desde o início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, em 28 de fevereiro, provocando sucessivas turbulências nos mercados globais. Enquanto isso, refinarias, depósitos de combustível e petroleiros ligados a nações árabes aliadas de Washington tornaram-se alvos iranianos no último mês.

Isso levou o barril de Brent, referência mundial, a disparar de US$ 60, antes da guerra, para mais de US$ 100, atingindo picos próximos a US$ 120.

De acordo com o ministro das Finanças francês, Roland Lescure, entre 30% e 40% da capacidade de refino do Golfo Pérsico foram danificadas ou destruídas pelos ataques retaliatórios do Irã, causando um déficit de 11 milhões de barris por dia nos mercados globais de petróleo. Lescure alertou que a restauração das instalações danificadas pode levar até três anos, e a retomada das operações daquelas que foram fechadas com urgência, vários meses.

A queda no fornecimento já levou a Agência Internacional de Energia (AIE), ligada ao clube dos países ricos OCDE, a liberar 400 milhões de barris de suas reservas emergenciais. O órgão estuda a necessidade de uma nova leva.