Estudo da UnB com apoio da FAPDF avança no desenvolvimento de hidrogênio limpo

Por Kleber Karpov

Um estudo realizado no Instituto de Física da Universidade de Brasília (UnB) está contribuindo para tornar a produção de hidrogênio verde mais acessível ao substituir a platina por catalisadores de menor custo. Coordenado pelo professor Jorlandio F. Felix e financiado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), o projeto utiliza filmes finos baseados em materiais abundantes para otimizar a divisão da molécula da água, um passo crucial para a transição para fontes de energia mais sustentáveis.

A pesquisa recebeu um investimento de R$ 179 mil do edital Demanda Espontânea de 2022 da FAPDF. Esse apoio foi fundamental para a estruturação da pesquisa, desde a adaptação de equipamentos até a aquisição de materiais de alta qualidade. Além dos avanços científicos, o projeto também contribui para a formação de estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado, fortalecendo o Distrito Federal como referência em nanotecnologia.

“Essa inovação não representa apenas um avanço científico, mas também evidencia a possibilidade de gerar energia limpa de forma mais econômica e com menor impacto ambiental, criando oportunidades econômicas e capacitando profissionais altamente qualificados na região”, afirmou o professor Jorlandio.

“Apoiar iniciativas como essa significa investir em autonomia tecnológica e em soluções práticas para os desafios da transição energética. Ao promover pesquisas que combinam ciência de ponta, sustentabilidade e potencial de aplicação industrial, estamos preparando o Distrito Federal para liderar a nova economia da energia limpa”, destacou o diretor-presidente da FAPDF, Leonardo Reisman.

Produção de hidrogênio verde

O hidrogênio é essencial na transição energética, pois pode substituir combustíveis fósseis em setores que são de difícil eletrificação, como a indústria pesada e o transporte de cargas, gerando apenas vapor de água como subproduto. Quando produzido a partir de fontes renováveis, é classificado como hidrogênio verde.

Esse elemento é obtido através da eletrólise, que consiste na divisão da molécula de água (H₂O) por meio de eletricidade. Para que essa reação seja eficiente, é necessário um catalisador que acelere o processo. Atualmente, o catalisador mais comum é a platina, um metal raro e caro, o que inviabiliza sua aplicação em larga escala.

Materiais bidimensionais

O estudo da UnB contorna essa questão ao utilizar filmes finos, que são camadas de material muito mais finas do que um fio de cabelo, como catalisadores. Esses filmes são produzidos a partir de materiais bidimensionais, como os dicalcogenetos de metais de transição (TMDCs).

Dentre os materiais investigados estão o dissulfeto de molibdênio (MoS₂) e o dissulfeto de tungstênio (WS₂). Esses elementos, que são abundantes e acessíveis, são aplicados em escala nanométrica para acelerar as reações químicas envolvidas na produção de hidrogênio, oferecendo uma alternativa viável à platina.

Ao utilizar materiais bidimensionais, conseguimos substituir um material escasso e caro por componentes mais abundantes e econômicos. Isso viabiliza a implementação em larga escala da tecnologia de energia limpa, diminuindo o custo final da energia”, explicou o professor Jorlandio.

Automação para garantir a qualidade

Um dos aspectos inovadores do projeto é o desenvolvimento da técnica de Esfoliação Mecânica Automática (AME). Trata-se de um sistema automatizado que deposita os materiais bidimensionais de forma controlada, garantindo uniformidade na aplicação.

Essa abordagem automatizada resolve um dos principais desafios da nanotecnologia, que é a reprodutibilidade, ou seja, a capacidade de produzir o material com a mesma qualidade de forma consistente. Essa tecnologia patenteada sob o número BR1020240157060 consolida o avanço tecnológico alcançado no Distrito Federal.

“Na ciência, não adianta descobrir um material incrível se não conseguimos fabricá-lo com qualidade consistente. O sistema AME garante a padronização e abre caminho para a aplicação industrial dessa tecnologia”, afirmou o coordenador.